Indico aqui o filme ‘’Vivre sa Vie’’, que é, ao menos para mim, o melhor de Godard depois de ‘’À bout de souffle’’, mas com uma diferença crucial; se a obra-prima passa uma sensação estranha a priori, como se tudo pudesse ser diferente se a cena houvesse acontecido 5 minutos antes ou depois, este passa uma sensação de exatidão filosófica cuidadosamente calculada.

Assistir Godard é como ter uma aula de filosofia com aquele seu professor favorito de trejeitos pouco ortodoxos; este filme, por exemplo, fervilha com referências a Brecht e Sartre, além de flertar com conceitos comuns aos filósofos alemães. O debate principal (novamente, ‘principal’ ao meu ver: assista e forme também uma opinião! Lang dizia que o cinema é a arte dos jovens) é sobre o conceito de liberdade nos dias atuais, que é uma das premissas básicas do existencialismo.
O próprio Godard certa vez disse, em resposta à uma sugestão de que poderia fazer aquilo que quisesse em relação aos seus filmes, que ‘’sempre fiz o que bem quis dentro dos limites daquilo que poderia fazer’’. Nana, a personagem do filme, exemplifica esse conceito na prática e tenta sobreviver na França dos anos 60, primeiro trabalhando numa loja de discos e depois prostituindo-se.
Algo particularmente interessante do filme são os olhares sugestivos e marcantes de Nana para a câmera, para nós. Faz-me pensar na premissa de Sartre de ‘’objetivar o olhar alheio’’, ou, para os físicos de plantão, no Princípio da Incerteza de Heinsenberg, ‘’observador interferindo no experimento’’. Ambos tem um ponto comum ― que, ao termos a consciência de que somos observados, tornamo-nos aquilo que acreditamos que o outro acha que sejamos ao nos olhar. Penso se nesse caso seríamos os observadores ou os observados…
Deixo aqui um diálogo importante e saboroso do filme. Não é o mais importante, de modo que o filme ainda fará sentido se você o pegar do começo, e nem dá dicas sobre o final; assim, minha consciência cinéfila fica em paz.

”Parte 11 - Place du Châtelet. O desconhecido. Nana faz filosofia sem saber.”
― Você me compra uma bebida?
― Se você quiser.
(Nana senta-se com o desconhecido.)
― Você vem bastante aqui?
― Não, às vezes. Por sorte, vim hoje.
― Por que você lê?
― É o meu trabalho.
(Silêncio. O desconhecido fuma e sorve um gole do café. Nana recomeça.)
― É engraçado. De repente, não sei o que dizer; isso anda acontecendo muito comigo. Eu sei o que quero dizer. Eu reflito sobre o que quero dizer. Mas, no momento de dizer… pff! Pareço perder a capacidade de dizer.
― Sim, claro… Você já leu ”Os Três Mosqueteiros”?
― Não, mas já vi o filme. Por quê?
― Porque nele, Porthos… bem, na verdade isso se passa no ”20 Anos Depois”. Porthos, grande, forte, um pouco besta… nunca pensou na vida, entende? Então, certa vez, ele precisa implantar uma bomba numa adega para explodí-la. Ele o faz. Coloca a bomba, acende-a e sai correndo, naturalmente. Mas, num impulso, ele começa a pensar. Ele pensa no quê? Ele se pergunta como pode colocar um pé após o outro. Você já se pegou pensando nisso também, presumo. E então ele pára de correr. Ele não pode mais, não consegue avançar. Tudo explode. A adega cai sobre ele, ele a segura com seus ombros, é forte. Mas, depois de um dia ou dois, cede e morre. Na primeira vez que pensa, morre.
― Por que me conta essa história?
― Sem razão, só por falar…
― E por que a gente sempre precisa falar? Muitas vezes devíamos nos calar, viver em silêncio. Quanto mais se fala, menos as palavras significam algo.
― Talvez, mas como?
― Não sei.
― Acho que não poderíamos viver sem falar.
― Então é isso, eu gostaria de viver sem falar.
― Sim, isso seria ótimo, não? É como se não amássemos mais. Mas não é possível, nunca será.
― Mas por quê? As palavras deviam exprimir exatamente o que queremos dizer… elas nos traem?
― Nós as traímos também. Devíamos ser capazes de dizer o que queremos, como era feito no tempo da boa escrita. É extraordinário possamos compreender ― compreendemos, na verdade ― um homem como Platão, por exemplo. Ele escreve em grego e há 2500 anos. Ninguém sabe a língua daquela época, ao menos exatamente. Mas ainda sim passa alguma coisa, então nós devemos poder nos expressar. E nós precisamos.
― E por que devemos nos expressar? Para se compreender?
― Nós precisamos pensar e, para se pensar, é necessário falar, não há escapatória. E para comunicar-se, deve-se falar; é a vida.
― Sim, mas ao mesmo tempo é muito difícil. Eu acho que a vida devia ser fácil. Sabe, a sua história dos Três Mosqueteiros pode ser muito, muito boa… mas é terrível.
― É terrível, sim, mas é uma indicação. Eu acredito que aprendemos a falar bem quando renunciamos à vida por certo tempo. É quase… o preço.
― Então, falar é mortal?
― Falar é quase uma ressurreição em relação à vida… quando falamos é uma outra vida de quando não falamos, compreende? Então, para viver falando deve-se passar pela morte da vida sem falar. Talvez eu não esteja sendo claro, mas há uma espécie de regra ascética que te impede de falar bem até olhar a vida com desapego.
― Mas não se pode viver a vida com…
― Desapego? Sim, mas nós balanceamos, e é por isso que devemos passar do silêncio às palavras. Nós nos balançamos entre os dois porque é o movimento da vida, de uma vida cotidiana. Nós nos elevamos a uma vida que chamamos de superior pois é a vida do pensamento. Mas essa vida pressupõe a morte da vida cotidiana, a vida por demais elementar.
― Mas então pensar e falar, hm, se parecem?
― Eu acredito que sim. Platão o disse, é uma ideia antiga: ”Nós não podemos distinguir do pensamento o que é o pensamento e as palavras que o exprimem.” Analisando a consciência, você não consegue separar o momento de pensar das palavras.
― Falando, então, arrisca-se mentir?
― Sim, porque mentiras são também parte de nossa busca. Há pouca diferença entre erro e mentira.
― Sim, mas…
― Não estou falando de mentiras comuns do tipo ”Prometo ir amanhã”, mas deixo de ir pois não quero. Vê, esses são truques. Mas uma mentira sutil dista pouco de um erro. Nós procuramos e não conseguimos achar as palavras certas. É por isso que você não conseguia saber o que ia dizer; tinha medo de não achar a palavra certa.
― Sim, mas como ter certeza de ter encontrado a palavra certa?
― Deve-se trabalhar nisso.
(Nana começa a olhar para a lente da câmera enquanto o desconhecido continua falando.) Deve-se falar de um jeito que é certo, inofensivo, que diga o que há pra ser dito, que se faça o que é necessário fazer. Sem machucar, sem ferir.
― Uma vez alguém me disse ”A verdade está em tudo, até mesmo no erro”.
― É verdade. Isso não foi visto na França do século XVIII. Eles achavam que podiam evitar o erro e, mais do que isso, que podia-se viver na verdade diretamente. Creio que não seja possível. Por isso há Kant, Hegel, a filosofia alemã: para nos conduzir à vida e nos fazer ver que devemos passar pelo erro para chegar na verdade.
(Nana reflete alguns segundos.)
― O que você pensa do amor?
― O corpo tinha de chegar nisso. Leibnitz introduziu o contigente. Verdade contigentes e verdades necessárias fazem a vida cotidiana… aos poucos chegamos na filosofia alemã onde pensamos, na vida, com os erros da vida, com as servitudes da vida… E deve-se lidar com isso, é verdade.
― O amor não deve ser a única verdade?
― Mas para isso o amor deveria ser sempre verdadeiro. Conhece alguém que sabe logo de cara quem realmente ama? Não é verdade. Quando se tem vinte anos, não se sabe o que ama. Você sabe migalhas, se agarra apenas em sua experiência. Você diz ”eu amo isso”, mas é só uma experiência. Mas para ser constituído inteiramente daquilo que se ama, é preciso a maturidade, e isso significa buscar. Essa é a verdade da vida. É por isso que o amor é uma solução, na condição de que seja verdadeiro.