Liberdade, Igualdade, Infidelidade

Tu sabias, Isabel, que as palavras derradeiras de Kierkegaard foram ''arrebata-me de uma vez''?
José Luís Peixoto, recitado por Dizedor.

—Dentro e sobre os homens

 

 

Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.
Depois das nuvens, no último lugar do mundo, ficamos aonde não chegam as vozes. Os nossos olhares estendem-se aos cantos mais esquecidos das casas, ao fundo do mar, aos lugares que só os cegos vêem, às rochas cobertas por folhas na floresta, às ruas de todas as cidades. Os nossos olhares tocam os lugares iluminados e tocam os lugares negros. Ninguém e nada nos pode fugir. À noite, estendemos os braços para entregar uma bala, ou um frasco de veneno, ou uma lâmina, ou uma corda. À noite, tocamos em rostos. E sorrimos. O som de um tiro. O fogo dentro de um frasco de veneno. Sangue a secar na linha de uma lâmina. Uma corda esticada na noite. Morte fogo sangue morte. E sorrimos. Longe da lua, depois das nuvens, o nosso rosto é uma ferida aberta no céu da noite. O mundo, diante de nós. Podemos tocar-te agora. Com o movimento mais pequeno de um dedo, podemos destruir aquilo que te parece mais seguro. Estás diante de nós. Se quisermos, podemos tocar-te. Se quisermos, podemos destruir-te.
Dentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria das águas, que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele. Sabemos que nos conheces. Em algum instante da tua vida, enchemos-te e envolvemos-te com a imagem da nossa voz, a imagem do nosso significado, o silêncio e as palavras. Num instante que escolhermos podemos voltar a encher-te e a cobrir-te. Sabemos que conheces o frio e a solidão à margem das estradas quando a noite é tão escura, quando a lua morreu, quando existe um deserto de negro à margem das estradas. Olha para dentro de ti e encontrar-nos-ás. Olha para o céu, depois das nuvens, e encontrar-nos-ás. Nunca poderás esconder-te de nós. Esse é o preço por caminhares sobre a terra onde, um dia, entrarás para sempre. As últimas pás de terra a cobrirem-te serão as nossas pálpebras a fecharem-se. Só então poderás descansar. 
Somos o medo. Conhecemos tantas histórias. Todos os amantes que olham pela janela e imaginam que se perderam para sempre. Todos os homens que, num quarto de hospital, abraçam os filhos. Todos os afogados que, pela última vez, levantam a cabeça fora de água. Todos os homens que escondem segredos. E tu? Escondes algum segredo? Não precisas de responder. Conhecemos a tua história. Vimos-te mesmo quando não nos vias. Vemos-te agora. Escondes algum segredo? Responde quando te olhares ao espelho. O teu rosto duplicado: o teu rosto e o teu rosto. Quando vires os teus olhos a verem-te, quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu, quando não conseguires distinguir-te de ti, olha para o mais fundo dessa pessoa que és e imagina o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti. Nesse momento, estaremos contigo. Envolver-te-emos e estarás sozinho.
Depois das nuvens, sobre os homens, debaixo da pele, dentro dos homens, esperamos por ti. Estamos a ver-te agora, enquanto lês. Estaremos a ver-te quando deixares de pensar nestas palavras. Dentro e sobre o teu rosto, sabemos os teus segredos. Sabemos aquilo que escondes até de ti próprio. Não nos podes fugir. Na palma das nossas mãos seguramos o teu coração, podemos esmagá-lo. Não podes fazer nada para nos impedir. O nosso olhar está parado sobre cada um dos teus gestos e sobre cada uma das tuas palavras. Diz uma palavra agora. Faz um gesto. Sorrimos perante as tuas palavras, como sorrimos perante o teu silêncio. Ninguém poderá proteger-te. Ninguém pode proteger-te agora. És ainda menos do que imaginas. Nós assistimos a mil gerações de homens como tu. Para nosso prazer, deixámo-los caminhar pelas linhas das nossas mãos. Para nosso prazer, tirámos-lhes tudo. Guiámos gerações inteiras de homens por túneis que construímos em direcção a nada. E, quando chegaram ao vazio, sorrimos. És igual a todos eles. Esperamos por ti dentro e sobre o teu rosto. Continua o teu caminho. Segue por essa linha da nossa mão. Nós sabemos onde termina esse túnel em que caminhas. Continua a caminhar. Nós esperamos por ti. Sorrimos ao ver-te.

Depois das nuvens, somos o medo.

Debaixo da pele, somos o medo.

 

Anônimo asked: Gosto da forma como expressa suas idéias. Escreve muito bem, e de fácil entendimento.

Schopenhauer me traumatizou uns anos atrás em Über Sprache und Worte, ao não somente desmoralizar os tradutores (”se não sabem escrever livros, não preocupem-se em traduzir os dos outros”) como também parafrasear Voltaire e condenar quem adorna em demasia o que escreve (”o segredo para ser entediante é dizer tudo”). Tenho lá minhas recaídas mas, no geral, tento ser conciso.
Ademais, valeu. :3

The Artist

—The Artist 2011 Movie Soundtrack (George Valentin Theme) - Piano

The Artist Soundtrack - Theme | Piano Version ∟ Miller & Valentin

(Fonte: hortonastaireaffair, via frenchcinema)

A FEW YEARS AGO,

escreve Truffaut a Hitchcock, ”eu era jornalista de cinema. No final de 1954, fui com meu amigo Claude Chabrol entrevistá-lo no estúdio St. Maurice durante as filmagens de ‘O Ladrão de Casaca’. Queria fazer um livro de entrevistas com o senhor, precedido de um texto que eu escreveria (para a Cahiers do Cinema, revista que Truffaut colaborava juntamente com Godard e Bazin, dentre outros) e cujo tema se resume assim: se, de repente, o cinema perdesse todas as bandas sonoras e voltasse a ser uma arte muda, muitos cineastas estariam desempregados. Exceto Hitchcock, que seria considerado o maior diretor do mundo.”

[Truffaut e Hitchcock]
É reconfortante ver, décadas e décadas depois, um filme mudo e preto-e-branco feito ”The Artist” como grande sensação do ano. Não somente pelo paradoxo que é um filme de pouca tecnologia e resgatando uma arte esquecida insurgir-se como ”inovação”, mas também pelo contexto da ideia. Pode-se dizer ”Bem, um filme mudo não deve ser necessariamente difícil de fazer. É sobretudo mais simples e menos complexo que um filme com diálogos, é uma inconsistência contemporânea”, mas cabe aí uma reflexão.  
Em Discours sur l’homme, Voltaire presenteia-nos com um sofisma interessante. Ele diz ”l’adjectif est l’ennenmi du substantif” [o adjetivo é inimigo do substantivo] como quem condena o uso excessivo da palavra pra se dizer o que tem em mente. Num longa de duas horas, contar uma história de amor, por exemplo, valendo-se de 80 minutos de diálogos, frases de efeito, declarações e afins não é uma tarefa tão difícil quanto fazê-lo apenas com gestos, sorrisos, lágrimas e vez ou outra uma frase na tela. Fazer cinema mudo nos tempos de cinema mudo é completamente diferente do que fazer cinema mudo na era 3D. 

Tout, terriblement

Indico aqui o filme ‘’Vivre sa Vie’’, que é, ao menos para mim, o melhor de Godard depois de ‘’À bout de souffle’’, mas com uma diferença crucial; se a obra-prima passa uma sensação estranha a priori, como se tudo pudesse ser diferente se a cena houvesse acontecido 5 minutos antes ou depois, este passa uma sensação de exatidão filosófica cuidadosamente calculada.

Assistir Godard é como ter uma aula de filosofia com aquele seu professor favorito de trejeitos pouco ortodoxos; este filme, por exemplo, fervilha com referências a Brecht e Sartre, além de flertar com conceitos comuns aos filósofos alemães. O debate principal (novamente, ‘principal’ ao meu ver: assista e forme também uma opinião! Lang dizia que o cinema é a arte dos jovens) é sobre o conceito de liberdade nos dias atuais,  que é uma das premissas básicas do existencialismo. 

O próprio Godard certa vez disse, em resposta à uma sugestão de que poderia fazer aquilo que quisesse em relação aos seus filmes, que ‘’sempre fiz o que bem quis dentro dos limites daquilo que poderia fazer’’. Nana, a personagem do filme, exemplifica esse conceito na prática e tenta sobreviver na França dos anos 60, primeiro trabalhando numa loja de discos e depois prostituindo-se. 

Algo particularmente interessante do filme são os olhares sugestivos e marcantes de Nana para a câmera, para nós. Faz-me pensar na premissa de Sartre de ‘’objetivar o olhar alheio’’, ou, para os físicos de plantão, no Princípio da Incerteza de Heinsenberg, ‘’observador interferindo no experimento’’. Ambos tem um ponto comum ― que, ao termos a consciência de que somos observados, tornamo-nos aquilo que acreditamos que o outro acha que sejamos ao nos olhar. Penso se nesse caso seríamos os observadores ou os observados… 

Deixo aqui um diálogo importante e saboroso do filme. Não é o mais importante, de modo que o filme ainda fará sentido se você o pegar do começo, e nem dá dicas sobre o final; assim, minha consciência cinéfila fica em paz. 

”Parte 11 - Place du Châtelet. O desconhecido. Nana faz filosofia sem saber.”

― Você me compra uma bebida?

― Se você quiser.

(Nana senta-se com o desconhecido.)

― Você vem bastante aqui?

― Não, às vezes. Por sorte, vim hoje.

― Por que você lê?

― É o meu trabalho.

(Silêncio. O desconhecido fuma e sorve um gole do café. Nana recomeça.)

― É engraçado. De repente, não sei o que dizer; isso anda acontecendo muito comigo. Eu sei o que quero dizer. Eu reflito sobre o que quero dizer. Mas, no momento de dizer… pff! Pareço perder a capacidade de dizer.

― Sim, claro… Você já leu ”Os Três Mosqueteiros”?

― Não, mas já vi o filme. Por quê?

― Porque nele, Porthos… bem, na verdade isso se passa no ”20 Anos Depois”. Porthos, grande, forte, um pouco besta… nunca pensou na vida, entende? Então, certa vez, ele precisa implantar uma bomba numa adega para explodí-la. Ele o faz. Coloca a bomba, acende-a e sai correndo, naturalmente. Mas, num impulso, ele começa a pensar. Ele pensa no quê? Ele se pergunta como pode colocar um pé após o outro. Você já se pegou pensando nisso também, presumo. E então ele pára de correr. Ele não pode mais, não consegue avançar. Tudo explode. A adega cai sobre ele, ele a segura com seus ombros, é forte. Mas, depois de um dia ou dois, cede e morre. Na primeira vez que pensa, morre.

― Por que me conta essa história?

― Sem razão, só por falar…

― E por que a gente sempre precisa falar? Muitas vezes devíamos nos calar, viver em silêncio. Quanto mais se fala, menos as palavras significam algo.

― Talvez, mas como?

― Não sei.

― Acho que não poderíamos viver sem falar.

― Então é isso, eu gostaria de viver sem falar.

― Sim, isso seria ótimo, não? É como se não amássemos mais. Mas não é possível, nunca será.

― Mas por quê? As palavras deviam exprimir exatamente o que queremos dizer… elas nos traem?

― Nós as traímos também. Devíamos ser capazes de dizer o que queremos, como era feito no tempo da boa escrita. É extraordinário possamos compreender ― compreendemos, na verdade ― um homem como Platão, por exemplo. Ele escreve em grego e há 2500 anos. Ninguém sabe a língua daquela época, ao menos exatamente. Mas ainda sim passa alguma coisa, então nós devemos poder nos expressar. E nós precisamos. 

― E por que devemos nos expressar? Para se compreender?

― Nós precisamos pensar e, para se pensar, é necessário falar, não há escapatória. E para comunicar-se, deve-se falar; é a vida. 

― Sim, mas ao mesmo tempo é muito difícil. Eu acho que a vida devia ser fácil. Sabe, a sua história dos Três Mosqueteiros pode ser muito, muito boa… mas é terrível.

― É terrível, sim, mas é uma indicação. Eu acredito que aprendemos a falar bem quando renunciamos à vida por certo tempo. É quase… o preço.

― Então, falar é mortal?

― Falar é quase uma ressurreição em relação à vida… quando falamos é uma outra vida de quando não falamos, compreende? Então, para viver falando deve-se passar pela morte da vida sem falar. Talvez eu não esteja sendo claro, mas há uma espécie de regra ascética que te impede de falar bem até olhar a vida com desapego.

― Mas não se pode viver a vida com… 

― Desapego? Sim, mas nós balanceamos, e é por isso que devemos passar do silêncio às palavras. Nós nos balançamos entre os dois porque é o movimento da vida, de uma vida cotidiana. Nós nos elevamos a uma vida que chamamos de superior pois é a vida do pensamento. Mas essa vida pressupõe a morte da vida cotidiana, a vida por demais elementar.

― Mas então pensar e falar, hm, se parecem?

― Eu acredito que sim. Platão o disse, é uma ideia antiga: ”Nós não podemos distinguir do pensamento o que é o pensamento e as palavras que o exprimem.” Analisando a consciência, você não consegue separar o momento de pensar das palavras.

― Falando, então, arrisca-se mentir?

― Sim, porque mentiras são também parte de nossa busca. Há pouca diferença entre erro e mentira.

― Sim, mas…

― Não estou falando de mentiras comuns do tipo ”Prometo ir amanhã”, mas deixo de ir pois não quero. Vê, esses são truques. Mas uma mentira sutil dista pouco de um erro. Nós procuramos e não conseguimos achar as palavras certas. É por isso que você não conseguia saber o que ia dizer; tinha medo de não achar a palavra certa.

― Sim, mas como ter certeza de ter encontrado a palavra certa?

― Deve-se trabalhar nisso. 

(Nana começa a olhar para a lente da câmera enquanto o desconhecido continua falando.) Deve-se falar de um jeito que é certo, inofensivo, que diga o que há pra ser dito, que se faça o que é necessário fazer. Sem machucar, sem ferir.

― Uma vez alguém me disse ”A verdade está em tudo, até mesmo no erro”.

― É verdade. Isso não foi visto na França do século XVIII. Eles achavam que podiam evitar o erro e, mais do que isso, que podia-se viver na verdade diretamente. Creio que não seja possível. Por isso há Kant, Hegel, a filosofia alemã: para nos conduzir à vida e nos fazer ver que devemos passar pelo erro para chegar na verdade.

(Nana reflete alguns segundos.)

― O que você pensa do amor?

― O corpo tinha de chegar nisso. Leibnitz introduziu o contigente. Verdade contigentes e verdades necessárias fazem a vida cotidiana… aos poucos chegamos na filosofia alemã onde pensamos, na vida, com os erros da vida, com as servitudes da vida… E deve-se lidar com isso, é verdade.

― O amor não deve ser a única verdade?

― Mas para isso o amor deveria ser sempre verdadeiro. Conhece alguém que sabe logo de cara quem realmente ama? Não é verdade. Quando se tem vinte anos, não se sabe o que ama. Você sabe migalhas, se agarra apenas em sua experiência. Você diz ”eu amo isso”, mas é só uma experiência. Mas para ser constituído inteiramente daquilo que se ama, é preciso a maturidade, e isso significa buscar. Essa é a verdade da vida. É por isso que o amor é uma solução, na condição de que seja verdadeiro.

dreamslow:

Em pé (da esquerda para a direita): Jacques Lacan, Cecile Eluard, Pierre Reverdy, Louis Leiris, Pablo Picasso, Fanie de Campan, Valentine Hugo, Simone de Beauvoir, Brassai.
Sentados: Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Michel Leiris, Jean Abier


Efervescência cultural. 

dreamslow:

Em pé (da esquerda para a direita): Jacques Lacan, Cecile Eluard, Pierre Reverdy, Louis Leiris, Pablo Picasso, Fanie de Campan, Valentine Hugo, Simone de Beauvoir, Brassai.

Sentados: Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Michel Leiris, Jean Abier

Efervescência cultural. 

earlyfrost:

“No one would take me just as I was, no one loved me; I shall love myself enough, I thought, to make up for this abandonment by everyone. Formerly, I had been quite satisfied with myself, but I had taken very little trouble to increase my self-knowledge; from now on, I would stand outside myself, watch over and observe myself; in my diary I had long conversations with myself. I was entering a world whose newness stunned me. I learned to distinguish between distress and melancholy, lack of emotion and serenity; I learned to recognize the hesitations of the heart, and its ecstasies, the splendor of great renunciations, and the subterranean murmurings of hope. I entered into exalted trances, as on those evenings when I used to gaze upon the sky full of moving clouds behind the distant blue of the hills; I was both the landscape and its beholder: I existed only through myself, and for myself… My path was clearly marked: I had to perfect, enrich and express myself in a work of art that would help others to live.”
—  Simone De Beauvoir, Memoirs of a Dutiful Daughter (via nefertiti)

earlyfrost:

“No one would take me just as I was, no one loved me; I shall love myself enough, I thought, to make up for this abandonment by everyone. Formerly, I had been quite satisfied with myself, but I had taken very little trouble to increase my self-knowledge; from now on, I would stand outside myself, watch over and observe myself; in my diary I had long conversations with myself. I was entering a world whose newness stunned me. I learned to distinguish between distress and melancholy, lack of emotion and serenity; I learned to recognize the hesitations of the heart, and its ecstasies, the splendor of great renunciations, and the subterranean murmurings of hope. I entered into exalted trances, as on those evenings when I used to gaze upon the sky full of moving clouds behind the distant blue of the hills; I was both the landscape and its beholder: I existed only through myself, and for myself… My path was clearly marked: I had to perfect, enrich and express myself in a work of art that would help others to live.”

—  Simone De Beauvoir, Memoirs of a Dutiful Daughter (via nefertiti)

(via janeanger)

fuckyeahexistentialism:

Image of Joseph Kosuth’s One and Three Chairs, 1965 (on display in various versions around the world). The artwork consists of a chair, a photograph of the chair, and the dictionary definition of ‘chair’.

1931 notebook entry from Ludwig Wittgenstein (Culture and Value 10e):
The limits of language is shown by its being impossible to describe the fact which corresponds to (is the translation of) a sentence, without simply repeating the sentence. (This has to do with the Kantian solution of the problem of philosophy.)

fuckyeahexistentialism:

Image of Joseph Kosuth’s One and Three Chairs, 1965 (on display in various versions around the world). The artwork consists of a chair, a photograph of the chair, and the dictionary definition of ‘chair’.

1931 notebook entry from Ludwig Wittgenstein (Culture and Value 10e):

The limits of language is shown by its being impossible to describe the fact which corresponds to (is the translation of) a sentence, without simply repeating the sentence. (This has to do with the Kantian solution of the problem of philosophy.)

(Fonte: beetleinabox)

Existencialismo em si menor

Era novembro e ignominiosos pesadelos assolavam meu sono e consequentemente meu humor, o que, de acordo com Louise, fazia de mim uma fraude; seu último adágio dizia que ”apenas pessoas desgraçadamente más se atrevem a fazer qualquer coisa que não seja gozar a vida, em novembros bonitos como esse”. Justo eu, assaz onironauta e diletante das lendárias festas no atalho secreto do quarto andar, via-me sem disposição para nada senão as necessidades básicas estudantis e aquela reflexão inquietante que acompanha o ócio. Meu ânimo, antes incansável, tresmalhara-se por entre as preocupantes cartas que chegavam de casa, o fim de meu relacionamento com Anna e os constantes simulados preparatórios para os N.E.W.Ts, de modo que estávamos ainda no meio de novembro e eu só pensava nos feriados de final de ano. 

Anna. Anna. A ladainha recomeçou em sussurros mentais com a voz dela, o jeito dela, o cheiro dela. Os deliciosos olhos cor-de-mel-que-acabou-de-sair-da-jarra. Foram tão inquietantes estas influências neste meu eu insone que não me mexi frente ao peso dos pensamentos que ela suscitava. Maldita. Num impulso, levantei-me febrilmente e resolvi transitar aleatoriamente pelos corredores de Hogwarts; talvez assim achasse o alvitre que necessitava para reencontrar o sono. Um par de vozes lentas e preguiçosas na Comunal saudou-me com sonolência e verifiquei que ainda faltava um quarto para às cinco da manhã. Atravessei o retrato sob os protestos da Mulher Gorda, que disse que só deixara-me passar pois contava que eu fosse expulso dessa vez, e deixei-me levar pelas inquietas escadas que pareciam tão insones quanto eu. Numa espécie de transe reflexivo, achei-me alguns minutos depois num trecho estreito que levava ao quarto andar e, conhecendo o atalho, enfurnei-me na passagem onde costumava organizar minhas boemias noturnas com as corvinas sextanistas. Esperava encontrar o lugar vazio, mas, assim que lacrei a entrada, vozes exaltadas e reverberantes fizeram-se por ouvir. Adiantei-me, curioso mas com a varinha em mãos, e deparei-me com um cenário inusitado.

Sentados em semi-círculo no chão frio e ladrilhado haviam três estudantes, e em sua frente havia um caldeirão fumegante que derramava-lhes volutas e volutas duma fumaça doce e densa. Além disso, o projeto arquitetônico da sala mudara; se antes era ampla e acolhedora (mas não demais, anoto), perfeita para festas, agora transmutara-se na sala de estar de uma casa modesta. Uma estante com mais lacunas do que livros, cadeiras de aparência desconfortável e uma mesinha de cabeceira medieval eram as silenciosas sentinelas do que quer que estivesse acontecendo ali, e a única poltrona do lugar estava ocupada por um casal que trocava carícias despudoradas, a fumaça velando-lhes com um ar quase poético. Compreendendo de onde vinha o barulho ofegante que escutara ao entrar, voltei-me para os três estudantes que haviam emudecido com minha chegada e num choque reconheci Louise entre os dois, encarando-me com cordial surpresa e contido contentamento. Os outros dois ― um mancebo de ar distante e uma menina de óculos retrô ― encararam-na interrogativamente e Louise somente assentiu com a cabeça, o que pareceu credencial suficiente para que se abrisse um espaço destinado a mim no meio do círculo. Sentei-me sonhadoramente e com uma crescente sensação de irrealidade, e os três recomeçaram a conversa como se não houvessem sido interrompidos.

― Vê, Golpalott nos mostrou, dentre outras coisas, que é impossível conjurar comida. Podemos modificá-la, aumentá-la em quantidade e quaisquer outras transformações do tipo, mas não podemos conjurá-la do nada. ― Disse a menina num tom protocolar, por detrás de suas lentes garrafais. ― A coisa começa a ficar realmente interessante quando nos valemos do mesmo conceito para tratar de coisas complexas, como por exemplo ”angústia”. O que é angústia? Podemos induzir angústia através de poções, podemos controlar a angústia através de feitiços, mas não podemos efetivamente ”conjurar” angústia. É intangível, é abstrato. É uma barreira a ser quebrada para a evolução da magia.

― Depende do que você considera ”angústia”. ― Interrompeu o outro, a fala carregada com um forte sotaque francês. De alguma maneira, sabia que seu nome era Antoine. ― A angst genuína, aquela que é amarga até na hora de pronunciar, nada mais é que uma reação básica a coisas como existência, magia, morte. Neste caso, induzir ou provocar angst poderia sim ser considerado criá-la, visto que a consequência prática é a mesma. ― Fez-se um intervalo, quebrado apenas pelo borbulhar crescente da poção e os ruídos salivares do casal se descobrindo ao fundo. 

 ― Uma vez que nenhum de nós é inerte, angustiar-se difere-nos das coisas inanimadas que escravizamos com a magia, este caldeirão, por exemplo. ― Continou o loquaz Antoine. ― Posso entupir-me de Polissuco ou transfigurar meu rosto, mudando-o em diferentes aspectos, que continuarei quintessencialmente eu mesmo. Ou posso sofrer traumas psicológicos que mudem aspectos determinantes do meu modo de agir, o que mudaria quem sou. Resumindo: somos livres para nos reinventarmos justamente por sermos indeterminados, meros moldes de nossas experiências numa sociedade existencialmente caótica. Este caldeirão, pelo contrário, foi feito para ser um caldeirão e a não ser que alguém o transfigure, continuará sendo um caldeirão não importa o que lhe aconteça. Dizem que ”a existência precede a essência”. Sendo assim, ”a essência precede a liberdade”. 

― O desafio ― disse uma voz abafada, e olhando para trás vi que pertencia à menina que se agarrava com o namorado; os dedos dele ziguezagueavam livres e experientes por entre as costelas do tronco de seu tronco já desnudado ― é aplicar o conceito de liberdade num sistema cada vez menos libertário. ― Mordeu lentamente o lóbulo do rapaz, deslizou os lábios molhados pela extensão de seu pescoço e virou-se para nós com um olhar de fogo matreiro e malicioso. ― Para haver liberdade na sua forma pura, que é a única que interessa, precisamos da capacidade de fazer juízos lógicos acerca daquilo que acontecerá, e assim tomar uma decisão ”livre”. ― Gemeu baixinho, enquanto a mão inquieta do namorado deixava perniciosas trilhas vermelhas em sua pele muito branca. ― Imagine-se num jogo de quadribol chuvoso e repleto de trovoadas por todo o campo. Se o sistema é determinado, lógico e confiável, existe aí alguma esperança de saber onde o raio vai cair. Podemos saber de antemão e, com base nisso, decidir qual é o melhor caminho até os aros adversários. É bem mais aplicável do que precisar confiar num mundo aleatório ― como de fato o nosso é. Se é aleatório, então estamos completamente à sua… mercê. ― Falava com dificuldade, atrapalhada com as carícias cada vez mais ousadas. Suas cinturas se uniram e um suave vitupério escapou de seus lábios antes de finalizar. ― Eu prefiro simplesmente viver sabendo que algo acontecerá não importa o que se faça. 

― Olha, desculpa, mas recuso-me a acreditar que a liberdade é somente uma espécie de argúcia lógica em meio à todo um esquema aleatório. Envolve conceitos muito mais profundos, mágicos, políticos, históricos e culturais do que esse. ― Opinei meio descrente, a cabeça rodando em meio à tantos pontos complexos levantados em tão pouco tempo e de forma tão surreal. Louise encarou-me, parecendo divertida com qualquer coisa, e a menina de óculos lançou-me um olhar analítico e maquinal, como se avaliasse minha presença ali. 

A outra estava atracada com o namorado numa posição que exigia dedicação e flexibilidade e achei que por isso não fosse me dar atenção, mas sua resposta saiu baixinha por entre suspiros, pernas e beijos. ― És livre para acreditar no que quiseres, companheiro. 

― É, também tenho minhas dúvidas. ― Disse Louise num tom animado e ainda me encarando com um ar indecifrável na face. ― Seguindo essa lógica, quem seria mais livre: um caldeirão, inerte e fadado a ser sempre um caldeirão, ou um elfo-doméstico, que pensa, age e toma decisões, mas abraça uma condição escravista preexistente?  ― Como a menina estava ocupada demais lambendo e mordendo o queixo do amado, completamente alheia ao resto, Antoine se manifestou outra vez.

 ― Da mesma forma que o elfo-doméstico é atado a essa condição que lhe foi imposta desde o princípio de sua vida pensante, somos igualmente presos a conceitos como bom-senso, ética, moral, sociedade… de fato, se pararmos para refletir, o abismo é maior entre um bruxo de espírito totalmente único e livre ― Dumbledore, por exemplo ― e o bruxo comum do que o abismo entre o mesmo bruxo comum e o elfo-doméstico. Acho que entendi o argumento… que, no final das contas, há pouquíssimo espaço para a liberdade qualquer que seja o seu ponto de vista. 

― Quer saber? ― Louise tocou delicadamente o caldeirão com a ponta da varinha e o que quer que estivesse sendo preparado emitiu um discreto silvo. ― No final das contas, prefiro não saber a resposta dessas coisas. Conhecimento traz infelicidade… no final das contas, o sentido está no nada. Mas venha cá! ― Disse com súbita energia, chamando-me com a mão e apontando para o conteúdo borbulhante. ― Já está quase pronto, não acha? ― Inclinei o tronco para lobrigar o caldeirão e meu rosto, refletido numa poção de tonalidades iridescentes, espiava-me ondulante por entre a fumaça. Olhei Louise, que incentivou-me a continuar, e adiantei-me um tantinho mais na intenção de observar melhor. Encarei meu reflexo como quem encara uma face alheia e tenta não rir, e, para minha surpresa, notei que o reflexo piscava numa frequência diferente da minha e agora ria abertamente. No instante seguinte, a sala rodou numa onírica espiral de sensações e despertei ao lado de Anna, que me olhava fixo com aqueles malditos olhos doces e amendoados de sempre. Ri, feito meu reflexo de segundos atrás, e perguntei-lhe numa voz falsamente despretensiosa: 

― Anna, tu te consideras livre?